Sócio da SP Ventures nos trouxe uma visão da relação entre fundos de investimentos e startups sob a óptica da inovação, para o Dia Mundial da Criatividade e Inovação.
Quais são as iniciativas dos fundos de venture capital, além do aporte financeiro, para alavancar as startups investidas?
Alexandre Stephan:
“Existem vários perfis de fundos seja no Brasil ou em mercados mais maduros como US por exemplo em relação a suas políticas de gestão ou acompanhamento dos seus investimentos. Existem fundos que possuem portfolios mais diversificados (em termos de número de companhias investidas) ou não. A participação do fundo pode se dar de forma 100% passiva, onde o fundo praticamente interage muito raramente com os fundadores e acompanha a evolução da companhia mais através de reports mensais e sem grandes direitos de governança (a não ser as proteções que qualquer acionista minoritário iria exigir) ate fundos muito mais ativos, que possuem equipes internas com conhecimentos específicos (RH, maquina de vendas, tecnologia, etc…) que possuem função de não somente ajudar na analise dos investimentos assim como ajudar após o investimento a disseminar conhecimento em áreas especificas que cada companhia ira necessitar ao longo de sua jornada de evolução.
O processo de um empreendedor buscar capital com fundos de venture capital costuma ser bastante estressando para os fundadores por acabar tomando muito tempo dos mesmos e tirar foco da operação. Mas ao mesmo tempo também não pode-se negar ser de fundamental importância, pois os fundadores estão buscando novos sócios, consequentemente entender muito bem o perfil de cada fundo, o que eles podem trazer para a mesa são pontos muito importantes a serem considerados pelos fundadores na hora de fechar uma rodada de investimento com um fundo.”
Dada a importância do segmento do agronegócio para a economia brasileira, como as startups desse setor conseguem impactar a sociedade do ponto de vista de inovação?
Alexandre Stephan:
“Entendemos que cada empresa do setor traz algum tipo de impacto transformativo tanto social quanto ambiental. Seguem exemplos: (i) Crop Protection – Devido a mudanças climáticas e o uso desenfreado de agroquímicos, o modelo tradicional para controle de pragas chegou próximo ao colapso. As agtechs estão atacando este problema em duas grandes vias: (a) Insumos Biológicos – No momento em que os agroquímicos perdem eficiência e não são mais toleradas pela Sociedade (devido a danos ao meio ambiente e a saúde dos consumidores), surge com vigor a indústria de biodefensivos. Trata-se de organismos naturais usados como agentes para controle de pragas e doenças agrícolas e (b) Tecnologias na nuvem (cloud), mobilidade (smartphones) e sensoriamento remoto (i.e. satélites e drones) estão mais baratas e user friendly, tornando-se acessíveis para pequenos e médios produtores. Essas tecnologias permitem identificação precoce de infestações e respostas mais precisas. Desta forma, reduz-se os danos causados e aplica-se menos inseticidas e fungicidas – gerando uma redução de custos e um acréscimo na receita do produtor em paralelo a redução de impacto ao meio ambiente.
Outro exemplo interessante são as fazendas verticais, que trazem o conceito de produção agrícola urbana, com sistemas de plantio sofisticados em galpões industriais permitindo uma redução brutal no uso de recursos hídricos e nenhuma utilização de insumos químicos. No nosso portfolio, investimos na Pink Farms, que inaugurou a maior fazenda vertical do Brasil dentro da cidade de São Paulo, no bairro Vila Leopoldina. O sistema de produção gera uma redução de 95% no uso de recursos hídricos em comparação a sistemas tradicionais de produção no campo.”
Na sua visão, quais são os principais critérios que tornam uma empresa elegível a receber um aporte do fundo? A capacidade de trazer uma inovação seria um pré-requisito?
Alexandre Stephan:
“Quando um fundo de venture capital considera financiar uma startup, há 3 fatores principais que eles procuram: (i) Tamanho de mercado; (ii) Diferencial de tecnologia e (iii) Análise dos fundadores e diferencial que o time oferece.
Esses critérios são bastante lógicos. Se o mercado for muito pequeno, não importa o quão bom seja o produto ou serviço, ele simplesmente não terá um grande impacto. Se a tecnologia for muito semelhante à de outros concorrentes, as chances de se destacar no grupo são baixas. Finalmente, sem pessoas incríveis, nenhum dos outros dois critérios importam.
Mesmo que o mercado seja gigante, que o modelo de negócios esteja bem pensado e que exista um diferencial tecnológico, um time que não tem visão de longo prazo e capacidade de execução terá chances muito menores de sucesso. Desta forma, os fundos dedicam grande tempo de sua análise para compreender o que motiva os empreendedores, quais são suas habilidades e pontos fortes individuais, quais são seus estilos de liderança, como lidam com situações de incerteza e adversidade, que relacionamento têm com os outros empreendedores, etc.”
23 abril 2021