Em Power and Prediction, Ajay Agrawal, Joshua Gans e Avi Goldfarb partem de uma premissa simples, mas de consequências vastas: a inteligência artificial é, fundamentalmente, uma tecnologia de previsão. Não se trata de robôs ou de ficção científica, trata-se de reduzir dramaticamente o custo de produzir estimativas sobre estados futuros ou desconhecidos do mundo.
Quando a IA recomenda um produto, sugere um diagnóstico ou aprova um crédito, o que ela faz em todos esses casos é preencher lacunas de informação com probabilidades. Segundo os autores, a reconfiguração do custo da previsão é um dos movimentos mais transformadores da atual revolução tecnológica, com desdobramentos que se estendem para além da eficiência operacional
A principal reflexão do livro ganha força a partir de uma distinção fundamental entre previsão e julgamento. Prever significa estimar o que provavelmente acontecerá. Julgar, por sua vez, é decidir o que fazer com base nessa previsão e, de forma ainda mais estratégica, definir quais questões realmente merecem ser previstas.
Enquanto a inteligência artificial avança rapidamente na capacidade de prever, o julgamento continua sendo uma atribuição essencialmente humana. É justamente aí que está um dos principais paradoxos apresentados pelos autores: quanto mais barata, rápida e acessível se torna a previsão, mais valioso passa a ser o julgamento.
Nesse contexto, a IA não elimina a necessidade da tomada de decisão humana. Ao contrário, ela muda a forma como o poder de decidir é exercido, tornando ainda mais importante a capacidade de interpretar informações, estabelecer prioridades e fazer escolhas estratégicas.
Os autores propõem que os impactos da IA nas organizações ocorrem em três camadas distintas. O impacto direto é o mais visível: a IA melhora tarefas existentes sem alterar a estrutura do sistema, gerando ganhos de eficiência sem ruptura.
O impacto indireto é mais profundo: ao alterar quem detém informação e capacidade de previsão, a IA reorganiza hierarquias internas, fluxos de decisão e relações de poder dentro das organizações.
O impacto sistêmico, por fim, é o mais transformador e o mais lento: a IA reformula mercados inteiros, regimes regulatórios e modelos de negócio, gerando novas estruturas de competição e concentração.
Em uma perspectiva de mercado, os autores mostram que a IA fortalece a chamada lógica de plataforma. Empresas que possuem mais dados conseguem fazer previsões mais precisas, atraem mais usuários e, consequentemente, geram ainda mais dados. Esse ciclo cria uma vantagem crescente para os líderes de mercado e favorece a concentração.
Esse movimento desafia os modelos tradicionais de concorrência e levanta debates importantes sobre regulação, acesso e equidade. Os autores fazem uma comparação com a eletricidade: assim como outras tecnologias de propósito geral transformaram a economia de forma gradual, a IA também deve seguir um caminho semelhante. Seu impacto não será linear nem uniforme, mas marcado por diferentes velocidades de adoção, resistências e efeitos distintos entre setores e organizações.
Para os profissionais, a mensagem é igualmente clara: aqueles que navegarão melhor por essa transição não serão necessariamente os que dominam as técnicas mais avançadas de análise ou previsão, mas os que sabem interpretar, questionar e tomar decisões a partir do que as máquinas produzem.
Nesse contexto, ganham relevância habilidades como pensamento crítico, ética aplicada, visão estratégica e comunicação, competências que dependem de contexto, discernimento e experiência humana e que continuam difíceis de serem reproduzidas por algoritmos. Power and Prediction propõe uma reflexão que vai além das capacidades da inteligência artificial. Mais do que discutir o que a IA é capaz de fazer, o livro convida a repensar o valor do julgamento humano em um mundo onde a previsão se torna cada vez mais acessível.
O ponto de partida está no próprio perfil de liderança. Durante décadas, executivos conquistaram espaço principalmente por terem acesso à informação. Quem dominava determinados conhecimentos, tinha acesso aos dados certos ou concentrava expertise técnica costumava ocupar posições de maior relevância nas organizações.
Com a IA, essa lógica começa a mudar. O acesso à informação se torna mais amplo e acessível, enquanto o verdadeiro diferencial passa a ser a capacidade de transformar informação em decisão. Ganham destaque os líderes que conseguem exercer um julgamento de qualidade em cenários de incerteza, ponderar valores conflitantes, articular trade-offs e tomar decisões mesmo diante de previsões probabilísticas.
Nesse contexto, o valor deixa de estar apenas em saber mais e passa a estar em decidir melhor. Por outro lado, funções executivas baseadas principalmente na coleta, processamento e síntese de informações tendem a passar por uma reconfiguração de relevância, uma mudança que precisa ser considerada nas práticas de avaliação, desenvolvimento e seleção de lideranças.
Por fim, o livro sugere três perguntas que qualquer líder executivo deveria ser capaz de responder com clareza: onde em minha organização o poder está ancorado no controle de informação, e o que acontece quando a IA distribuir esse acesso? quais decisões estratégicas hoje são tratadas como técnicas, e precisam ser elevadas ao nível de julgamento humano explícito? E, talvez a mais reveladora de todas: estou adotando IA para ganhar eficiência, ou para redesenhar como minha organização funciona? A distância entre essas duas respostas é, segundo Agrawal, Gans e Goldfarb, a distância entre capturar o potencial da tecnologia e apenas simular que o faz.
17 junho 2026