Dois ventos contrários: como as bets e as canetas emagrecedoras estão redesenhando o consumo

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Dois ventos contrários: como as bets e as canetas emagrecedoras estão redesenhando o consumo

Nos últimos meses, dois fenômenos passaram a ocupar o centro das discussões estratégicas no setor de bens de consumo: as apostas esportivas online, conhecidas como bets, e os medicamentos à base de GLP-1. O impacto deixou de ser uma hipótese e já se reflete de forma concreta em volume, margem e comportamento do consumidor.

Embora distintos em sua natureza, ambos os vetores atuam de forma complementar. As bets redirecionam a renda disponível, enquanto os medicamentos reduzem o apetite. O efeito combinado é a compressão do consumo por diferentes vias, impondo pressão simultânea sobre os modelos tradicionais do setor.

O dinheiro que foi realocado

As apostas esportivas se consolidaram como um relevante redirecionador de renda no Brasil. Estimativas indicam que aproximadamente R$ 240 bilhões foram destinados a plataformas de bets em 2024, com impacto direto no orçamento das famílias, especialmente nas classes C, D e E, onde o consumo por volume é mais representativo.

Mais do que uma mudança de hábito, o movimento revela uma reconfiguração estrutural da alocação de renda, com impactos diretos sobre a base de consumo do setor. A compressão do orçamento já se traduz em pressão sobre decisões estratégicas, exigindo revisões de portfólio e arquitetura de preços.

No setor de bebidas, por exemplo, líderes ampliam a oferta de produtos mais acessíveis, fortalecem categorias não alcoólicas e aceleram o desenvolvimento de opções com menor teor calórico e apelo funcional. Esse movimento contribui para mitigar a desaceleração de volume em categorias tradicionais, ao mesmo tempo em que impulsiona ganho de mix e viabiliza a expansão em novos momentos de consumo.

A caneta que reduziu o apetite e consumo

Estudos indicam uma redução média de 3,8% no volume de compras de alimentos e bebidas em lares com usuários desses medicamentos, com reduções mais fortes em categorias indulgentes como snacks, chocolates, fast foods e bebidas alcoólicas. Ao mesmo tempo, cresce a demanda por produtos com maior teor proteico, ingredientes naturais e posicionamento funcional. Trata-se de uma mudança mais lenta, porém estrutural, com potencial de expansão relevante nos próximos anos.

Empresas globais já vinham antecipando esse movimento.
Uma multinacional líder em alimentos acelerou sua transformação para nutrição funcional e produtos premium, com foco em suplementos, proteínas e café de maior valor agregado, categorias que apresentam margens superiores e crescimento mais resiliente.

Da mesma forma, uma gigante global de bebidas diversificou seu portfólio para além de produtos tradicionais, com expansão consistente em versões sem açúcar, bebidas funcionais e hidratação. Hoje, parte relevante do crescimento dessas companhias já vem dessas novas categorias, compensando a desaceleração dos produtos mais indulgentes.

Dois impactos, uma mesma pressão

Embora impactem perfis de consumidores distintos, os dois fenômenos influenciam hábitos de consumo. No food service, os reflexos aparecem de diferentes formas: de um lado, consumidores mais atentos aos gastos; de outro, uma redução no volume consumido.

O modelo baseado em volume, frequência e indulgência começa a ser testado de forma simultânea por ambos os lados. Esse efeito já começa a aparecer de forma mais sensível no setor, onde frequência e ticket médio são altamente elásticos à renda e comportamento. Dados recentes indicam desaceleração no crescimento do setor e maior pressão em categorias indulgentes, especialmente em refeições por impulso e ocasiões de conveniência.

Além disso, operadores relatam redução de frequência de visitas e maior sensibilidade a preço, com consumidores migrando para ocasiões mais planejadas ou reduzindo consumo fora do lar.

Como o setor está reagindo

Três movimentos começam a ganhar força entre as empresas mais preparadas:

  • “Premiumização” defensiva: compensar menor volume com maior valor agregado
  • Reformulação de portfólio: produtos mais funcionais, com foco em proteína e saúde
  • Revisão de talentos: busca por líderes capazes de lidar com pressão de curto prazo e transformação estrutural ao mesmo tempo

Um bom exemplo dessa estratégia combinada é o de uma multinacional de bens de consumo que expandiu sua atuação em alimentos naturais e plant-based, inclusive via aquisições. Esse movimento permitiu capturar crescimento em categorias premium e fortalecer a percepção de marca alinhada à saúde e sustentabilidade.

O futuro já começou

Bets e GLP-1 não representam movimentos passageiros, mas forças estruturais que vêm transformando os padrões de consumo. Empresas capazes de compreender essas mudanças e se adaptar com agilidade tendem a fortalecer sua relevância e ampliar participação de mercado. Já aquelas que demorarem a reagir podem enfrentar um cenário em que os hábitos de consumo já terão se alterado de forma significativa e duradoura.

O ponto central é claro: não se trata mais de defender volume, mas de reconstruir relevância.


Referências

  • Relatórios anuais e apresentações a investidores do setor de bebidas (ex: AB InBev/Ambev, 2023–2025)
  • Morgan Stanley (2024) — impacto de GLP-1 no consumo alimentar
  • NielsenIQ — mudanças de comportamento e redução de volume
  • Relatórios anuais de empresas globais de alimentos e bebidas (2022–2025)
  • Associação Brasileira de Bares e Restaurantes — impacto de renda e comportamento no food service
  • Instituto Foodservice Brasil — indicadores de desempenho do setor
  • Relatórios anuais e apresentações estratégicas (ex: Unilever; McKinsey Food Trends Report)


1 junho 2026